ENTRE O CUIDADO DE SI E A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

Publicado em: 24/01/2020

ENTRE O CUIDADO DE SI E A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

Artigo elaborado a partir do TCC apresentado à UNIVERSIDADE INTERNACIONAL DA PAZ – UNIDADE MINAS GERAIS em parceria com a FACULDADE METROPOLITANA DE BELO HORIZONTE na conclusão da pós-graduação Formação Holística de Base – uma abordagem transdisciplinar (2007).

Autora:          Maria de Fátima Saliba

Bacharel em Ciências Contábeis e Administração pela PUC-MG, Administradora da iniciativa privada, onde se aposentou após 28 anos de trabalho. Terapeuta de práticas integrativas e complementares de saúde, pertence ao Colégio Internacional dos Terapeutas. Coordenadora do Projeto Social Criança-Flor de terapia floral. Coordenadora do curso de pós-graduação lato-sensu da UNIPAZ-MG (2006-2008). Pós-graduada em Formação Holística de Base, uma abordagem transdisciplinar pela UNIPAZ-MG e FACULDADE METROPOLITANA DE BELO HORIZONTE. Membro do Conselho Fiscal e do Colegiado da Associação Universidade da Paz de Minas Gerais – UNIPAZ_MG.

Juliane Correa – Profª Doutora, Orientadora

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ResumoO presente estudo descreve a mutação pela qual o mundo e as pessoas vêm passando no período pós-industrial. Esta mutação gera pressões que, ocasionalmente, resultam em sérios problemas de saúde. Tal estudo apresentará alternativas de transformação do sofrimento do sujeito, como forma de prevenção às doenças e à infelicidade, vencendo, assim, os males que acometem o ser humano trabalhador. O sujeito enquanto ser trabalhador vive um dos papéis que lhe é necessário desempenhar ao longo de sua trajetória. E para viver isto com sucesso é imprescindível o resgate do ser inteiro que ele é, integrando suas dimensões física, mental, emocional e espiritual.

Palavras-Chaves: fragmentação – integral – conhecimento – sabedoria – felicidade

Abstract: The present work describes the mutation that world and people are suffering during the postindustrial time. This mutation achieves a pressure level that occasionally results in serious health problems for people. This study will propose alternatives to subject the suffering to a transubstantiation action as a way of preventing diseases and unhappiness and for defeating the maladjustment that disturbs the human being in his work. The man functioning as a worker being lives one of the most important functions necessaries during his life and to perform it successfully, it is essential to rescue the whole being that is; to integrate its physical, mental, emotional and spiritual dimensions.

Word-Key:  fragmentation – integral – knowledge – wisdom – happiness

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INTRODUÇÃO

A pessoa, as crises existenciais e suas escolhas criativas reportam à proposta deste estudo, numa investigação dos fatores que favorecem o bem-estar e a qualidade de vida e que reduzem os níveis de estresse.

Qual o questionamento que nos leva fundo a refletir e a olhar como observador acurado para nosso próprio viver em busca de reconhecer o que faz a diferença? Foucault (1984) questiona-nos através de quais jogos de verdade, o homem se dá seu próprio ser a pensar, quando se olha como pessoa saudável ou como doente, quando reflete sobre si, como ser vivo, ser falante e ser trabalhador, quando se julga e se pune enquanto criminoso.

Que mal acomete o homem (trabalhador) nos tempos pós-industrial? O que é o mundo no qual se vive? Quais as alternativas que nos possibilitam experiências saudáveis, frente às exigências decorrentes das mudanças atuais, nos processos produtivos e na organização do trabalho?

Como redescobrir o significado da vida e coroar de louros a grande obra de arte que é viver? Como conquistar a lucidez e a consciência de que o sofrimento faz parte da vida? Como estar desapegado do sofrer e do não sofrer?

Por que nas instituições de trabalho, assim como nas escolhas profissionais que as pessoas fazem no decorrer de suas vidas, algumas delas sob as mesmas condições de tensão e insatisfação, superam os grandes desafios que se apresentam, e outras não conseguem e desencadeiam sintomas que geram o adoecimento?

A hipótese, que irá nos guiar, será analisada através da constatação de que mais do que, propriamente, as condições objetivas do ambiente de trabalho ou dos revezes pelos quais passa a pessoa, mas, sua condição interior é que fará a diferença. A baixa tolerância à frustração e a incapacidade de aceitar a si mesma, dificultam e impede a pessoa de receber a vida como dádiva no seu caminho pessoal e profissional.

A alegria e a felicidade a que todo ser visa encontrar está na descoberta de sua verdadeira natureza e na expressão constante da sabedoria, do amor, do respeito a si mesmo e a todos os seres. (Carta Magna-1986) [1]

Poderemos refletir com Joel Birman (2000), se há uma renúncia por parte do homem ao mundo terreno e sua regulação pelos preceitos divinos, que levaria enfim, a subjetividade a se forjar em face de um Deus impessoal e onipotente, e que regularia também hierarquicamente o reino, território por excelência do homem. Se passar por aí, é o caso de se ter o indivíduo dilacerado pelo pertencimento a estes dois mundos, divino e terreno, servindo sempre a dois senhores, a Deus e ao Príncipe, numa assimetria que marcaria sempre a relação entre essas figuras na verticalidade.

Poderemos também considerar a ruptura contemporânea entre um saber cada vez mais cumulativo e um ser interior cada vez mais empobrecido, o que leva à ascensão de um novo obscurantismo, cujas conseqüências, no plano individual e social, são incalculáveis. E, ainda, que a vida anda fortemente ameaçada por uma tecnociência triunfante, que só obedece à lógica apavorante da eficácia pela eficácia. (Carta da Transdiciplinaridade-1994) [2]

Entretanto, através da cultura grega e greco-latina, retrocedendo ao Século IV a.C., a questão encontra um conjunto de práticas que tiveram na antiguidade uma importância considerável em nossas sociedades, as chamadas técnicas ou artes da existência.

Hoje, essa proposta é resgatada pela psicologia transpessoal, como tecnologia ou arte da transcendência, com o objetivo de harmonizar, preventivamente, o trabalhador e ajudá-lo no cuidado de si, e evitar assim a sua fragmentação e o seu adoecimento, frente aos desafios e pressões do mundo econômico e velozmente tecnológico.

Poderemos pesquisar, na cultura oriental, a tradição budista tibetana, e por ela desvendar um sentido da existência onde a generosidade, a disciplina, a paciência, a perseverança, a concentração e a sabedoria são fatores que podem nos conduzir a uma vida bem-sucedida.

A Organização do Trabalho e o Cuidado de Si

Preservar a qualidade de vida enquanto se luta para ganhar o sustento, no laborioso trabalho cotidiano, tem se mostrado como o grande desafio destes tempos pós-industrial. A importância que o trabalho tem para o bem-estar e a saúde das pessoas é algo comprovado e reconhecido, mas que, de alguma forma, tem sido relegado ao esquecimento, frente à inversão de valores cultuados atualmente. A desmesurada importância que a sociedade confere ao dinheiro e ao equivocado conceito de sucesso que se impõe ao indivíduo, tais como o status socioeconômico e o desempenho profissional, são alguns dos valores que incapacitam o homem a estar em paz consigo mesmo, levando-o a uma perene insatisfação.

Mas, podemos considerar que ainda estamos na transição entre a idade moderna e a pós-industrial,  entre a idade da razão e a idade da consciência, no seu mais amplo sentido. Neste momento, o ser mutilado, fragmentado – mente, coração e existir – é convidado a resgatar sua inteireza. Isto significará curar-se.

Nossa insatisfação profissional poderá ser sentida nas manifestações de perturbações neuróticas dos relacionamentos com as outras pessoas, sejam elas clientes ou colegas de trabalho, em todos os níveis.  Uma competição sem ética, a ambição desmedida, a vaidade exacerbada e a inveja são espelhos deste mal estar. O profissional insatisfeito pode comportar aspectos como o não gostar do que faz, ou de onde se faz, e o não se sentir reconhecido pelo que faz, ou não-recompensado pelo que se julga merecedor. Para a grande maioria das pessoas, o trabalho é uma tortura, e condiz com a acepção etimológica do termo – do latim “tripalium” significa três paus, instrumento usado para castigar os escravos. (SILVA, 1994)

Observa-se que pessoas insatisfeitas profissionalmente, preocupam-se, tornam-se tensas e se angustiam permanentemente, num sofrimento ininterrupto que pode desencadear o adoecimento. Os medos, ansiedades e angústias são sofridos, muitas vezes, em solidão. E, atualmente, as produções farmacêuticas são extraordinárias, no processo saúde-doença-cuidado, marcado pelo excesso de medicação, ou, a medicalização abusiva do sofrimento, para o controle dos sintomas do distúrbio, entretanto sem curá-lo, conforme constatado na pesquisa realizada e pelo estudo desenvolvido pelo Doutor em Saúde do Trabalhador, Luiz C. Brant.

“A transformação do sofrimento em adoecimento na gestão do trabalho, a crise da autoridade do mundo contemporâneo, a quebra de resistência da organização dos trabalhadores, o biopoder pretendendo governar o corpo e a mente, a “seleção biológica” dos mais adaptados às novas tecnologias, e as neurociências visando ao controle em detrimento da cura, constituem o conjunto da problemática que os setores de Saúde Ocupacional e de Recursos Humanos vêm enfrentando, no interior das instituições do trabalho.”  Brant (2004)

“Como consequência o indivíduo perdia o status de trabalhador e adquiria o de doente, sendo assim representado na empresa, família e comunidade. Alguns assumiam a posição de doente frente à vida, tornando-se pessoas tristes cuja existência perdera o sentido. A partir da manifestação do sofrimento, raros eram os que não se tornavam pacientes identificados – portadores de um diagnóstico patológico. Começava-se, então, um novo percurso, cujo primeiro destino era: somatização (tentativa de localização no corpo dos agravos à saúde); psiquiatrização de problemas próprios da vida organizacional; medicalização abusiva; licença médica; hospitalização compulsiva e desnecessária (com permissão da família); reinserção profissional e aposentadoria por invalidez. Sob tais circunstâncias, não sucumbir ao processo de adoecimento era difícil, mas não impossível, visto a resistência de muitos.” (Brant& Minayo-Gomez, 2002; 2005).

Por outro lado, quanto mais atento for o indivíduo aos seus próprios sentimentos e às suas emoções, em especial frente às situações que lhe geram medos e resistências, maior será sua possibilidade de se reconhecer, e de elaborar suas fragilidades e inseguranças. Essa postura lhe trará a autoconsciência, maior aceitação e força para vencer os seus desafios.

É no contínuo resgate de valores e atitudes do ser humano trabalhador que poderão ser geradas políticas de saúde, para a superação das muitas e rápidas mudanças que vem acontecendo nos processos produtivos atuais. E, na organização do trabalho, será essencial a criatividade de ações de auto cuidado que promovam o bem-estar do trabalhador, e gerem o movimento que superará sua inércia. Isto gerará a manutenção de sua saúde, com menor afastamento por doenças, o que levará às instituições a ganhos de produtividade.

 Fundamentação teórica

O projeto intelectual de Edgar Morin busca unir todo conhecimento separado, contextualizá-lo e situar toda verdade parcial no conjunto de que ela faz parte. “Complexus significa o que foi tecido junto” (MORIN, 2002 b, p. 38). Ao instigar a mente contemporânea com a inteligência da complexidade, com o pensamento complexo, de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados, coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Numa segunda abordagem, a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem o nosso mundo fenomenal.

Autopoiese [3] foi o termo cunhado na década de 70 pelos biólogos e filósofos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana para nomear a complementaridade fundamental entre estrutura e função, para designar os elementos característicos de um sistema vivo e sua estrutura. As pesquisas sobre tal objeto de estudo apontaram uma definição de vida como sendo a autonomia e constância de uma determinada organização das relações e os elementos constitutivos desse mesmo sistema, organização essa que é auto referencial no sentido de que a sua ordem interna é gerada a partir da interação dos seus próprios elementos e auto reprodutiva no sentido de que tais elementos são produzidos a partir dessa mesma rede de interação circular e recursiva. Essa construção conceitual foi rapidamente difundida e começou a ser empregada em outras áreas do conhecimento até ser introduzida na seara das ciências sociais.

As descobertas da física quântica, indicando que a luz pode manifestar-se ao mesmo tempo como partícula ou como onda, mostram um princípio aparentemente paradoxal e contraditório, mas real dentro de nosso Universo. As inferências desse referencial contradizem a lógica formal da separação matéria-energia, sendo denominada, por Pierre Weil [4], Matriz Holopoética Fundamental, e se encontra hologramaticamente presente em todos os sistemas do Universo, explicando, segundo ele, a fragmentação e a interface entre ciências físicas, biológicas, e programáticas informacionais. Sob esse enfoque, o mundo interior e exterior do homem e da natureza está sujeito aos princípios dessa matriz, que dá subsídios aos conceitos básicos do corpo teórico da psicologia transpessoal, o conceito de unidade, a teoria da não-superatividade. Somos todos constituídos da mesma matéria, vida psíquica, programação, informação, consciência e conhecimento. Estas informações resgatam uma nova visão da natureza da realidade, e encontram respaldo dentro da Universidade Holística Internacional, cuja apresentação é feita pela sua Carta Magna e pelos seus Princípios Éticos, assim como pela Carta da Transdisciplinaridade, documento redigido pelos participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, realizado em Arrábia, Portugal, em novembro de 1994.

Será através destes paradigmas que poderemos compreender o processo a que me proponho estudar e investigar, do cuidado de si refletido na organização do trabalho e no caminhar profissional do ser humano.

Possibilidades de Transformação do Sujeito

Dado um código de ação, e para um determinado tipo de ação, existem diferentes maneiras de “se conduzir” moralmente, diferentes maneiras para o indivíduo que age, de operar não simplesmente como agente, mas sim como sujeito moral dessa ação.

Resumindo:

Não existe ação moral particular que não se refira à unidade de uma conduta moral; nem uma conduta moral que não implique a constituição de si mesmo como sujeito moral; nem tampouco constituição do sujeito moral sem modos de subjetivação, sem uma ascética ou sem práticas de si.  Foucault (1984:28)

Na investigação realizada por Foucault (1984), em sua obra O Uso dos Prazeres, segundo livro da trilogia História da Sexualidade, podemos refletir na marca já constatada na sociedade pagã da Antiguidade, das formas de relação do homem consigo mesmo e as práticas, as técnicas sobre as quais essa relação se apoiava.

Um termo é utilizado na língua clássica para designar essa forma de relação consigo, essa “atitude” que é necessária à moral dos prazeres, e que se manifesta no bom uso que se faz deles: Enkratéia.  Essa palavra permaneceu, por muito tempo, próxima de Sophrosune  e, por vezes, foram encontradas juntas ou com acepções similares.

Na Antiguidade Grega, encontraremos Xenofonte (427355 a.C.) empregando tanto Enkrateia como Sophrosune para designar a temperança, que faz parte, juntamente com a devoção, a sabedoria, a coragem e a justiça, das cinco virtudes que ele, em geral, reconhece. Platão (428/27-347 a.C.) se refere a essa proximidade das duas palavras quando Sócrates (470-399 a.C), interrogado por Cálicles sobre o que é “comandar a si mesmo”, responde: “consiste em “ser sábio e se dominar”, em comandar os prazeres e os desejos em si próprio”.

O homem considerado normal, em nossa atual civilização, leva uma vida competitiva e ansiosa, deixando em um plano distante o contato com sua essência psicológica e espiritual. William James, enfaticamente afirmava ser a mente humana uma qualidade de possibilidades energéticas ocultas no homem à espera de quem queira descobri-las, ativá-las e utilizá-las. Nós todos temos um reservatório de vida para evoluirmos, com o qual nem sonhamos. Fazemos uso de uma porção muito pequena das possibilidades de nossas consciências. Existem técnicas que facilitam nosso acesso a esses reservatórios de vida ou potenciais. Essas técnicas fazem parte de um conjunto de artes ou de uma tecnologia que tem sido aprimorada há milênios por várias culturas e, especialmente, constituem o núcleo das grandes tradições religiosas do mundo. Essa tecnologia é a Arte da Transcendência (SALDANHA, 1999).

Arte da Transcendência

Há seis elementos comuns na arte da transcendência, que favorecem a mente transcender seus limites usuais, e que podem ser aplicados de forma educativa e preventiva da saúde.

  1. O treinamento ético, onde a ética está como disciplina essencial para se treinar a mente.
  2. O treinamento da atenção e o cultivo da concentração, tidos como essenciais para vencer a instabilidade dos desvios dos desejos da mente destreinada.
  3. A transformação emocional, facilitada pelos dois treinamentos anteriores, e que se apresenta através de atitudes que denotam a redução de emoções destrutivas, tais como o medo e o ódio; o cultivo de emoções positivas como amor, afeto, compaixão; e o alcance da equanimidade ou imperturbabilidade frente aos desafios da vida.
  4. A motivação para o saudável, cujo direcionamento é obtido pelo comportamento ético, a estabilidade da atenção e a transformação emocional trabalhando juntos através de práticas, tais como a meditação. Os efeitos são sentidos pela redução da compulsividade, da dispersão dos desejos e dos conflitos psíquicos.
  5. Há uma tendência natural da mente de vagar pelo passado e pelo futuro e é necessário um esforço para se manter a atenção no presente. Através de técnicas como meditação, concentração, contemplação e relaxamento, essa consciência poderá ser refinada, fazendo surgir maior percepção do frescor e inovação de cada momento da experiência, que se apresenta mais interessante e apreciativa, e ainda cultivar a sabedoria e ampliar a capacidade intuitiva.
  6. O conhecimento é um conjunto de informações a respeito de algo; a sabedoria é a incorporação deste conhecimento e significa que para senti-la, é necessário que nos modifiquemos. Para desenvolvê-la, é preciso instaurar o processo de autotransformação, impulsionado pela lucidez quanto à transitoriedade das lutas e sofrimentos que se apresentam na vida.

Tanto filósofos orientais como ocidentais sustentam que toda virtude requer outras virtudes para completá-la.  A psicologia transpessoal evidencia que a prática dos elementos das artes da transcendência deve ser valorizada e favorecida ao indivíduo. Ela possibilita não só a expansão da mente, como também a organização de um psiquismo saudável, a serenidade e o desenvolvimento de recursos próprios no processo de evolução pessoal. (SALDANHA, 1999)

As possibilidades de transformação que serão apresentadas aqui visam permitir que o homem, considerado normal, em nossa atual civilização, aquele que leva uma vida competitiva e ansiosa, possa resgatar o contato com sua essência psicológica e espiritual.

As essências florais

O cuidado do ser com as essências florais busca harmonizar a personalidade sem ocupar-se em demasia com os sintomas apresentados. Estes, por sua vez, devem ser considerados apenas como elementos auxiliares, por trazerem sinais simbólicos da profundidade e da natureza do desequilíbrio.

As essências florais têm sua base no reino vegetal e agem como instrumentos da arte da cura. Os vegetais estão realizando sua experiência na vida, num estado de consciência semelhante àquele que o ser humano tem quando está dormindo sem sonhos. As flores representam o estado de máxima expansão do vegetal, e acumula-se nelas toda a experiência transcorrida no percurso de sua existência. As essências florais atuam no corpo humano por ressonância vibratória, catalisando os processos de transformação do ser, nutrindo as forças internas que despertam nele seus talentos, virtudes e potenciais latentes de qualidades. (UCHA)

Os atos de altruísmo

Seria a conduta inspirada no desejo de ajudar os outros uma maneira eficaz de obter a felicidade? Vamos considerar o seguinte. Nós, humanos, somos seres sociais. Viemos ao mundo em consequência de ações dos outros. Sobrevivemos aqui dependendo dos outros. Gostemos ou não, talvez não exista em nossa vida um só momento em que não nos beneficiamos das atividades dos outros. Por esses motivos, não chega a surpreender que a maior parte de nossa felicidade esteja associada ao nosso relacionamento com os outros. Nem é tão extraordinário que nossas maiores alegrias ocorram quando estamos motivados pela consideração pelos outros. Daí ser possível verificar que, não só os atos de altruísmo trazem felicidade, como também diminuem nossa sensação de sofrimento. Isso não significa que o indivíduo, cujas ações são motivadas pelo desejo de proporcionar felicidade aos outros, passe por menos infortúnios do que aquele que não age assim. (DALAI LAMA, 2006)

A meditação

Ao contrário do que se costuma propagar, a meditação faz parte de um trabalho cotidiano de autoconstrução. Meditar é estar consigo mesmo por alguns minutos. É viável e está ao alcance de todos. Sua prática requer determinação. Só não alcançamos com facilidade o estado meditativo porque ficamos presos às mensagens dos cinco sentidos físicos, que são registradas, organizadas e catalogadas, a cada segundo, em nossa mente, em função de lembranças do passado e antecipações do futuro.

Há milhões de maneiras de se meditar. Várias técnicas igualmente eficazes de meditação. E tentar fazer meditação significa ter uma atitude experimental, obedecer a certos princípios básicos e ser livre para caminhar com nossas próprias pernas.

Os momentos de estado meditativo não são percebidos enquanto estão ocorrendo. Quem a pratica vai notar que viveu algo mais profundo, mas apenas quando voltar à consciência.

Muitas vezes, depois de dez ou quinze minutos sentado, imóvel, respirando ar puro pausadamente, e com a coluna ereta, o praticante ainda não eliminou o desfile de dispersões mentais e idéias fora de propósito, e pode ter a falsa impressão de que sua tentativa de meditar foi inútil.

Entretanto, ele colherá frutos ao perceber a segurança e a serenidade que está adquirindo com a prática. Os minutos seguintes serão mais claramente produtivos, a atenção estará mais plena, as distrações pouco a pouco perdem força.

A respiração profunda 

Quem pratica meditação regularmente melhorará o seu desempenho se fizer um exercício de respiração profunda durante alguns minutos, antes de meditar. Pode-se prestar atenção na respiração, tornando-a um pouco mais profunda, a qualquer hora do dia. O movimento respiratório tem duas fases: o da inalação e o da exalação. Entre elas há sempre uma pausa, por menor que seja. Entre a inalação e a exalação, a mente fica disponível para receber impulsos do eu ético ou divino que se encontra em nosso interior e que é nossa tarefa desenvolver. Já entre a exalação e a inalação, transfere esses impulsos recebidos para o cérebro, e eles se exteriorizam como pensamento. Portanto, a respiração está diretamente ligada ao ato de pensar. Influi na qualidade, na intensidade e na abrangência do pensamento e, ao mesmo tempo, dela emanam os elementos que o nutrem.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Seguindo a teoria de Maturana e Varela, que nos mostra a ideia de que o mundo não é previamente dado, mas de que o construímos ao longo de nossa interação com ele, podemos considerar que não é apenas uma teoria, ela apoia-se em evidências concretas. Podemos considerar que a vida é um processo de conhecimento, os seres vivos e, mais especificamente, os seres humanos constroem esse conhecimento não a partir de uma atitude passiva, e sim pela interação. Aprendemos vivendo e vivemos aprendendo, desde que nos permitimos abertura para o novo. Somos eternos aprendizes da arte de viver.

Transpondo essas reflexões para o cuidado de si e a organização do trabalho, percebemos o quanto é saudável ao indivíduo investir na maior percepção de si como pessoa que tem sentimentos, que sofre, mas que também sente prazer. Através do resgate de valores éticos, da estabilidade da atenção e do cultivo da concentração, podemos promover nossa transformação emocional e aprender a reagir com temperança às manifestações internas e às ações externas, tanto no âmbito pessoal como no profissional, nutrindo motivações para uma vida saudável. Tudo isto vai apurando nossas percepções do mundo, levando-nos a tirar aprendizado das experiências, sejam elas boas ou ruins. Por sua vez, geramos no ambiente em que estamos inseridos, influências destas nossas ações, transformando-o de acordo com a ressonância criada.

Conhecer e aplicar as técnicas ou as artes da existência poderá ser considerada uma opção que nos levará à evolução integral e à saúde. Será e com razão o que fará a diferença, sem a pretensão de atingir a perfeição ou ganhar a salvação. Mas, apenas para nos ensinar a sermos mais tolerantes com a fraqueza do ser humano que somos, e considerar a dignidade e a harmonia que emanam da aceitação de nossos limites. Essa nossa atitude,automaticamente, se estenderá às pessoas ao nosso redor, independente do papel que tenham em nossa vida. Ao nos aceitarmos, vamos aprendendo a aceitar o outro, com suas diferenças e seus limites também.

Ratifico que o sentido maior de nossa existência se revela através do afeto, do amor e da solidariedade para com o outro, tanto quanto na opção pelo recolhimento em nome da contemplação interior e da intimidade.

Muitas vezes, a inspiração esvai-se e o vazio toma conta. E nestes espaços vazios, precisamos ser suficientemente sensíveis para percebermos que eles fazem parte de nossa criatividade e para, sem pressa, redescobrir a dimensão do trabalho da nossa modesta existência. (MOORE,1992).

O trabalho criativo pode ser excitante, inspirador e divino, mas não deixa de ser também rotineiro, enfadonho, carregado de ansiedade, frustração, impasses, erros e fracassos. A criatividade consiste, antes de mais nada, em estar no mundo de uma forma intensa e emotiva, pois a única coisa que realmente construímos, quer ao nível da arte e da cultura, quer no âmbito da vida privada, é o aperfeiçoamento de nosso ser. Aí sim, seremos capazes de desfrutar do nosso trabalho, com uma profunda e duradoura satisfação, impermeável aos fracassos e aos rasgos de sucesso.

Ao lado de uma transmissão de saberes e técnicas que preparem para uma profissão, uma educação deve preparar o ser humano para a arte de viver. Caberá a cada indivíduo completar a acumulação de conhecimentos e o exercício da razão, com o desenvolvimento do caráter, da sensibilidade, da inteligência emocional, com a cultura da escuta e do respeito, com a disciplina e o esforço, a compaixão e a solidariedade e com a abertura para a vida interior. Se o homem contemporâneo negligenciou a si mesmo, abandonou-se, voltado que estava para sua ascensão somente no aspecto exterior do profissional, resta-lhe aprender a abrir seu coração, desabrochar sua alma, conscientizar seu corpo, mente e emoções. E aí descobrirá então a plenitude que é o amor infinito, o conhecimento total, a realização integral, e será, enfim, um homem bem-sucedido.

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REFERÊNCIAS

AVELINE, Carlos Cardoso; O Poder da Sabedoria – Crescimento Interior e Transformação Pessoal na Nova Era – Brasília: Editora Teosófica, 2001, 3. ed.

BIRMAN, Joel – Entre cuidado e saber de si – Sobre Foucault e a Psicanálise – Rio de Janeiro: Relume Dumará, (Conexões 7), 2000

BRANT, Luiz Carlos – O processo de transformação do sofrimento em adoecimento na gestão do trabalho – Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Público. Fiocruz, 2004, Tese de Doutoramento

BRANT, L & MINAYO-GÓMEZ C. – Os sofrimentos e seus destinos na gestão do trabalho. Rio de Janeiro, 2005: Ciência e Saúde Coletiva; 10(4):939-952

CREMA, Roberto – Pedagogia Inciática – Educar para Ser – Disponível no site: http://www.cuidardoser.com.br/pedagogia-iniciatica-educar-para-ser.asp – Acesso em 18 de set. 2007 às 14:50h

DALAI-LAMA, Sua Santidade, o – A Vida de Compaixão – São Paulo:  Ed.Bertrand, 2002

Uma ética para o novo milênio – Sabedoria milenar para o mundo de hoje; Sextante, GMT Editores Ltda., 2005

D’AMBRÓSIO, Ubiratan et al; Declaração de Veneza. In: I Fórum da Unesco sobre Ciência e Cultura , promovido em Veneza, Itália, em cooperação com a Fondazione Giorgi Cini; 3 a 7 de março de 1986

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda; Novo Dicionário da Língua Portuguesa – Editora Nova Fronteira, 1975

FOUCAULT, Michel; História da Sexualidade – 2 – O uso dos prazeres – São Paulo: Edições Graal Ltda., 2006, 11. ed.

FOUCAULT, Michel; História da Sexualidade – 3 – O cuidado de si – São Paulo: Edições Graal Ltda., 2005, 8. ed.

MATURANA, H. e VARELA, F. – A Árvore do Conhecimento – As bases biológicas do conhecimento humano – São Paulo: Ed. Palas Athena, 2005, 5. ed.

MOORE, T. – O Sentido da Alma – Como desenvolver a dimensão profunda e sagrada da vida quotidiana – Planeta Editora, 1992

MORIN, Edgar; LIMA, Freitas; NICOLESCU, Basarab; Carta da Transdisciplinaridade. In: I Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, Portugal, 2 a 7 de novembro de 1994

MORIN, Edgar – Introdução ao Pensamento Complexo – Lisboa: Instituto Piaget, 2002, 3. ed.

SALDANHA, Vera – A Psicoterapia Transpessoal – Editora Rosa dos Ventos; 1999

SILVA, Marco Aurélio D. – Quem ama não adoece – São Paulo: Editora Best Seller, 1994

UCHA: Alberto Lesina – Essências Florais que ativam a Memória – Porto Alegre: FEEU nº 493 – Fundação Educacional e Editorial Universalista

UNIVERSIDADE HOLÍSTICA INTERNACIONAL, Carta Magna, Paris, 28/junho/1986

[1] Característica da abordagem holística que é contemplada nos itens que compõem a Carta Magna da Universidade Holística Internacional – Paris, 28/junho/1986.

[2] CARTA DA TRANSDISCIPLINARIDADE In: I CONGRESSO MUNDIAL DE TRANSDISCIPLINARIDADE – Convento da Arrábida, Portugal, 2 a 7/novembro/1994.

[3] Do grego: auto significa próprio e poiesis significa criação.

[4] Pierre Weil, nascido em Estrasburgo, em 1924, é um dos idealizadores, fundador, e reitor da Universidade Holística Internacional da Paz desde sua fundação em 1987. É escritor, autor de mais de 40 livros, educador e psicólogo, residente no Brasil.