A Neurose do Paraíso Perdido – Proposta para uma nova visão da existência

Publicado em: 30/06/2020

GRUPO DE ESTUDOS ONDASMAR, uma Revolução Silenciosa

O professor Pierre Weil, foi o mentor, fundador e primeiro Reitor da Universidade Internacional da Paz – UNIPAZ. Doutor em psicologia, psicólogo, educador e escritor, autor de mais de 40 livros, trabalhou pela UNIPAZ desde a sua fundação em 14 de abril de 1987 até outubro de 2008, quando fez sua passagem.

Uni-me ao “Grupo de Estudos Ondasmar, uma Revolução Silenciosa” para com os demais colegas, aprofundar e compartilhar nosso interesse pelo tema da Paz e a dedicação ao serviço de Samurai da Paz.

O Grupo Ondasmar teve início dia 24/09/2014. Os encontros acontecem uma vez ao mês, durante duas horas e meia. O objetivo é divulgar a proposta de educação para a paz, estimular mais pessoas a conhecer as obras do professor Pierre Weil.

Após questionamentos, análises e ponderações dos participantes, decidimos que o estudo da obra (s) escolhida (s) por cada um de nós deverá inspirar-nos na elaboração de uma resenha, ou de um artigo, ou de outro registro. Pronto o trabalho, estaríamos disponíveis a apresentá-lo aos demais membros do Grupo Ondasmar, estendendo o convite a outras pessoas.

Definimos o Foco dos estudos nas seguintes perguntas:

  • Como identificarmos a proposta de Educação para a Paz desenvolvida por Pierre Weil a partir da leitura de sua obra?
  • Como Pierre Weil desenvolveu a proposta de Educação para a Paz, a partir de suas experiências descritas em suas obras?

A RESENHA

Obra: A NEUROSE DO PARAÍSO PERDIDOProposta para uma nova visão da existência – WEIL, Pierre; tradução de Áurea de Irberger Simil Cordeiro. 2. ed. – Rio de Janeiro: Espaço e Tempo: CEPA: 1987

Minha escolha foi por uma resenha descritiva, baseada na análise do discurso com destaque para alguns parágrafos que nos orientarão na investigação empreendida.

A obra compõe-se de 121 páginas e está dividida em quatro partes ou capítulos e a conclusão. A Introdução, com o título “O Homem em busca do Paraíso Perdido”, é uma síntese do que será descortinado no decorrer da leitura.

A parte I, intitulada “A Fantasia da Separativdade” é a constatação da vida como ela é. A fragmentação, os conflitos, a oposição de opiniões, e a contestação constante entre as pessoas. Um sentimento de insatisfação permanente. A impermanência dos momentos de prazer. São fatos que atormentam nossas vidas e geram sofrimentos. Várias citações de Freud, e sua teoria psicanalítica, foram apontadas para explorar a fundo o conceito da fantasia da separatividade, termo definido para a dualidade percorrida pelos seres humanos durante a existência.[1]

Segundo Pierre, a psicanálise consegue mostrar como se forma na criança, a primeira separação, sujeito e objeto, ao descrever a diferenciação do seio da mãe pelo bebê, fonte de alimentação e prazer. Essa dualidade se reforça no “estágio do espelho”.

Em seguida, nos esclarece que a separatividade interior se dá na medida em que a pessoa exprime suas várias facetas, o que lhe acarreta novos conflitos e sofrimentos, todos ligados aos valores inerentes a cada papel assumido, tais como, marido, esposa, profissional, chefe, subordinado, e assim por diante. Acontecerão questionamentos de identificação.

Assim, afirma Pierre Weil que, quando nos referimos a “eu”, nem sempre nos damos conta de quem estamos falando, se de nosso corpo, de nossas emoções, de nossos pensamentos, de nossos papéis ou diferentes “egos”. [2]

O nosso pensamento é um verdadeiro reservatório de separatividade, mais precisamente, a sua fonte, pelo seu poder de dividir, analisar, organizar o mundo em interior e exterior, definir suas várias e distintas classes, nomear as coisas, criar palavras diferentes, em centenas de línguas diferentes para uma mesma coisa. Quanto mais palavras há, mais separação existe. [3]

Então, o pensamento, fundamentado na percepção e nas sensações, através da Separatividade gerada, é considerado o responsável pela origem de todas as disciplinas do conhecimento, o registro racional controlado: Arte, Ciência, Filosofia e Religião. [4]

Mas as explicações de Pierre evidenciam muitas razões deformadoras relativas a percepção. A fantasia sob a ótica da psicologia, por exemplo, atestada pela física quântica, provou que matéria é igual a energia, e isto prova que separatividade também é fantasia. [5]

E, foi assim, baseado na importância que Freud dava ao papel das fantasias na origem da neurose, e pela sua dissolução através da tomada de consciência em favor do princípio de realidade, mediados pelo critério da percepção, que Pierre Weil deu início ao conceito de “fantasia da separatividade”. [6]

A parte II traz como título, o da obra propriamente dito, “A Neurose do Paraíso Perdido”, e dará continuidade à reflexão da separatividade, distinguindo três tipos de fantasias, a primeira Fantasia do Sujeito, a segunda Fantasia do Objeto, e a terceira Fantasia da Relação de Objeto, que nos leva a crer na separação sujeito-objeto e objetos entre si.[7]

A partir de agora, Pierre Weil dará início a explicar-nos o desenvolvimento da grande neurose da humanidade. Justificou a adoção do termo psicanalítico neurose, por se tratar de um sistema patológico fonte de sofrimento, autossofrimento ou fazer sofrer os outros.

Nesta parte, ele foi além da psicanálise, do original freudiano, e teceu a ampliação do conceito para “Neurose do Paraíso Perdido”, através de outras linhas do conhecimento. Detalhou três fatores essenciais às causas das neuroses, os fatores biológico, filogenético e o psicológico.[8]

Especialmente sobre os fatores psicológicos Pierre esbarrou na fragilidade do aparelho psíquico, a etiologia da neurose, sofrimentos neuróticos gerados pelos perigos pulsionais interiores.[9] E, foi mais além, unindo ao que se refere à neurose do Paraiso Perdido, às experiências da psicologia budista, especialmente, a tibetana. Poderá então argumentar como que a gênese da fantasia da separatividade, se produz constantemente em nossa vida cotidiana. Os tibetanos consideram que há em nossas vidas determinadas situações que são onipresentes, em que não há separatividade, nenhum dualismo. Eles as chamam de base primordial, ‘é um estado que é’, como diz Chögyam Trungpa (1981) citado por Pierre Weil. Toda espécie de coisas é produzida a partir dessa base, fagulhas de dualidade, raios de sabedoria. É energia que se produz constantemente, se irrompe e depois retorna ao seu estado original. A dissolução da fantasia da separatividade se dará pela afetividade (emoção e sensação), pela percepção, pelo intelecto e pela consciência [10]

Já no tocante ao intelecto, Pierre faz uma releitura da gênese bíblica, para os eventos posteriores à queda de Adão e Eva, com a eclosão de todas as emoções destrutivas, que constitui o sofrimento da neurose do paraíso perdido. E é muito interessante:

  1. […] A absorção do fruto da árvore do conhecimento, simboliza a dualidade do bem e do mal, o primeiro conflito interno.
  2. […] O sentimento de culpa, Adão e Eva se escondem de Deus nos jardins;
  3. […] O primeiro medo, percepção de Adão de sua própria nudez, torna-se vulnerável ao mundo ‘exterior’ que se criou em seu espírito, seu ser separado do Ser;
  4. […] A projeção, ou primeiro mecanismo de defesa, quando Deus responsabiliza Adão por ter comido o fruto proibido, ele não assume ter aceito, mas projeta sobre Eva a falta cometida. Eva, por sua vez, ao ser questionada por Deus, projeta sobre a Serpente. As raízes da paranoia se instalam.
  5. […] A serpente[11] e a regressão, ao ser condenada ‘a andar sobre seu ventre’ e a ‘comer da terra’ a energia humana é cortada do céu, da sabedoria primordial e da natureza intrínseca do Ser.
  6. […] O primeiro conflito interno, a hostilidade instalada entre a energia serpentina, o homem e a mulher através da divisão interior, a desarmonia entre a alma e o instinto animal no homem.
  7. […] A aparição da dor e do sofrimento, na Anima, Eva, no aspecto feminino, cada vez que ela pare. Parir é a ação de retornar ao paraíso perdido, ao jardim do Éden. A infância é o estado primordial de êxtase e de beatitude antes da queda na dualidade. […] é às vezes, em plena dor …que uma pessoa se ilumina…”O homem é aprendiz, a dor é seu mestre”;
  8. […] O desejo e o apego; o poder;
  9. […] O nascimento da cultura, o homem condenado a extrair sua substância da terra…trabalhar ao suor de sua fonte;
  10. […] Os obstáculos ao retorno ao estado primordial, a pluralidade que se desenvolve no espírito do homem…os condicionamentos culturais[…]
  11. […] A morte física, […] seu corpo deverá retornar ao ‘pó’ da terra do qual é feito […] o apego ao corpo, com o qual se identifica, o homem se convence que se trata de ‘sua’ morte.
  12. […] O complexo de Caim, o orgulho, a cólera e o ódio, a depressão, a inveja e a primeira morte […] as emoções destrutivas ligadas à cultura, matam em nós mesmos as harmonia e a paz de nossa sabedoria primordial. Caim mata Abel em nossa própria vida mental a todo instante.[12]

 

Na parte III, com o título “A Reação Holística: Pontes sobre as Fronteiras”, antes de traçar as pontes, Pierre Weil apresentará as várias fronteiras existentes no mundo que levam cada vez mais o ser humano à essa dualidade. E, então, mostrará o novo movimento (holístico) que se insurge contra qualquer espécie de reducionismo ou especialista (científico, somático, religioso, nihilista, materialista ou substancialista, racionalista, mecaniscista, antropocêntrico)[13]. Transcorre também pela tentativa de dissolução das fronteiras econômicas e políticas.[14] Ele detalhará a proliferação das disciplinas e da transdisciplinaridade[15], a teoria geral dos sistemas[16] o estruturalismo[17], a sistemologia de Lupasco e a ultrapassagem das fronteiras da lógica formal[18], holograma, bootstrap e ressonância mórfica.[19]

Esclarece que a Psicologia Transpessoal criada em 1969, tornou-se um vasto movimento internacional, unindo as fronteiras do espírito, favorecendo o encontro da Ciência, da Arte, da Filosofia e da Mística. Naquele momento já se encarregava de estudar em paralelo aos conceitos físicos, biológicos e psicológicos, as linhas místicas orientais e ocidentais.

Entre tantos estudos da Psicologia Transpessoal, os estados ditos místicos, já conhecidos em todas as culturas antigas e contemporâneas, encontraram relação entre as descrições de físicos modernos. Podemos vivenciar a nós mesmos como parte integrante do universo. Tudo isto e, em especial, a tese de Charles Tart (1975), ajudaram Pierre Weil em sua concepção sobre a percepção da realidade. Tart afirmava que a consciência é o produto de construções feitas para sobrevivência do ser humano, mas também para conservar a coesão da cultura na qual se vive. Então, a uma pessoa de uma cultura determinada, certos sistemas são atualizados, enquanto que outros são mantidos no estado potencial. Tart insiste quanto ao fato de que existem outros estados de consciência, e foi quem criou o conceito de ciência de estado específico de consciência. Na antiga tradição Hindu já se conhecia uma classificação dos estados de consciência, conforme os Upanishad, nos quais Pierre Weil se embasou:[20].

  1. Estado de Vigília: a consciência em relação ao mundo físico pela intermediação dos órgãos sensoriais;
  2. Estado de Sonho: a consciência em relação aos sistemas mentais do universo, pelo sistema mental do indivíduo, desligado do corpo físico;
  3. Estado de Sono profundo sem sonho: a consciência em estado puro, desligada do sistema físico e mental, apenas no estado obnubilado (enuviado, perturbação);
  4. Estado Transpessoal ou Cósmico: a consciência retoma seu caráter de Ser.[21]

Pierre definiu uma fórmula que sintetiza essa lei: VR = f (EC) – a vivência da realidade VR é função F do estado de consciência EC no qual se encontra a pessoa. Esta fórmula foi definida a partir do estado de vigília, ou mundo da relatividade e de dualidade.

Então, na visão de Pierre, a Psicologia Transpessoal, trouxe sua grande contribuição ao mostrar onde se encontra o “paraíso perdido” e qual o caminho para a dissolução da fantasia da separatividade. Mostrará as vias ou métodos de acesso ao estado transpessoal da consciência. Ele acredita que a Terapia Transpessoal é a terapia da humanidade. [22]

A parte IV “A Visão Holística” após apresentar as principais linhas do movimento holístico de reação à fragmentação e à separatividade, Pierre afirmará ser o movimento holístico a dissolução da fantasia da separatividade e um tratamento da neurose do paraíso perdido, no nível individual e no coletivo.[23]

Ele se dispôs ao esforço de iluminar essa visão como novo paradigma, e aí Pierre buscará definir os princípios gerais que caracterizam o paradigma Holístico e fará sua primeira tentativa de esboçar uma metodologia própria.[24]

Através da abordagem holística, foi possível relacionar as informações das Tradições, baseada em vivências experienciais, e os da Ciência, cujo fundamento é racional e experimental.

A partir dessa nova possibilidade definiu-se o termo Holologia para as abordagens especulativa e experimental da filosofia e da ciência, a abordagem racionalista do real, ou do pensamento discursivo. E, por outro lado, o termo Holopraxia ou Holopráxis para o conjunto de métodos experienciais de vivência direta do real pelo ser humano. [25]

Segundo Pierre, é importante entender que o equilíbrio dessas duas formas de conhecimento poderá revelar o olhar de cada indivíduo quanto à visão ou perspectiva holística do real. Caso contrário, se apenas a Holologia, um intelectualismo estéril poderá ser gerado, e a Holopráxis, mesmo com uma vivência transpessoal, sem uma linguagem adequada, um apoio logístico e conceitual, não será reconhecida. Segundo Pierre, “é uma grande alegria reconhecer em um texto a descrição daquilo que se vivenciou”. [26]

Pierre passará a decorrer sua análise no modo como o Ser se relativiza na Existência e como se manifesta sob a forma de Experiência da dualidade e da multiplicidade. Daí questiona-se sobre “O que é o Ser” e parte do ponto de vista filosófico de Heidegger, em sua obra “Ser e Tempo” (1927) que aborda de maneira original uma das mais antigas questões da filosofia – O ser, o vir-a-ser, o ser em relação ao pensar e o ser em relação ao dever. Tudo isto torna-se uma prova sem contestação para Pierre, “…a permanência daquilo que é, além de todas as impermanências da manifestação dos universos, assumiu nomes diversos do Ser, …Absoluto, …Essência, …Espírito, …Deus, …Natureza primordial…” [27]

Na última parte ou Conclusão desse estudo, com o título Da Árvore da Morte à Árvore da Vida ou A superação da ‘Dialética”, após nos ensinar sobre a superação da fantasia da separatividade, Pierre apresentará a importância da dualidade vista até então como obstáculo. Pois é justamente por esta dicotomização do Ser, que se pode ter existência, caso contrário nenhuma experiência é possível. Pierre citará o Taoísmo com suas expressões Yin e Yang, como uma condição imprescindível da experiência do Ser, de forma a não deixar dúvidas.[28]

A emanação e a absorção da dialética é a essência do holomovimento, e está na representação simbólica da queda de Adão na Árvore do Conhecimento e seu retorno à Arvore da Vida, um longo período da história da humanidade, mas poderá ser experienciado a todo momento em nós mesmos, numa sucessão de eventos, que simboliza o ato de criação e de dissolução do universo. Nasce e se dissolve, na morte da sabedoria primordial, sem que nos percebamos, a não ser que estejamos em processo de Holopráxis – Percepção, pensamento e consciência![29]

Afirma que os conflitos e tensões do pensamento dialético, estão aí para serem superados no processo de reabsorção individual e coletiva, e tem grande importância no processo cíclico do Ser. É através da dialética que se dará a estimulação do despertar para a vida, e a morte do desconhecimento, mas que descuidadamente tomamos pelo verdadeiro conhecimento.[30]

Finalizando, Pierre Weil clareia nossa busca pelo entendimento de que o sofrimento promovido pela neurose do paraíso perdido, provoca em nós a nostalgia, que é a força dialética que dissolverá nossa fantasia da separatividade e será também a possibilidade de nossa liberação como o Ser que sempre fomos, e que agora para nós se descortina! [31]

Considerações Finais

Na tomada de consciência da fantasia da separatividade, que perpassa o inconsciente humano, e a neurose do paraíso perdido como estímulo para resgatar nossa inteireza como ser individual, ser social e ser da natureza, nos tornará seres livres, pacíficos e únicos. Nesta harmonia alcançaremos a verdadeira natureza do espírito.

Não tenho dúvida, esta obra é um verdadeiro manual de vida, com ensinamentos úteis ao nosso cotidiano, e à ampliação de consciência, e confirmam o grande trabalho de Educação para a Paz desenvolvido por Pierre Weil. [32]

[1] WEIL, Pierre; A NEUROSE DO PARAÍSO PERDIDO Proposta para uma nova visão da existência; tradução de Áurea de Irberger Simil Cordeiro. 2. ed. – Rio de Janeiro: Espaço e Tempo: CEPA: 1987 (p.17)’

[2] Ibid (p.19)

[3] Ibid (p.19-20)

[4] Ibid (p.20)

[5] Ibid (p.21)

[6] Ibid (p.24)

[7] Ibid (p.29)

[8] Ibid (p.29)

[9] Ibid (p.38)

[10] Ibid (p.40-45)

[11] A serpente simboliza a força energética primordial que enrolada em torno da coluna vertebral, pode ser sublimada, transmutada e servir de mediador para realizar o ‘reino do céu’ sobre a terra, isto é, retornar ao estado de não-dualidade (ascensão da Kudalini).

[12] Ibid (p.46-50)

[13] Ibid (p.53-56)

[14] Ibid (p.57-60)

[15] Ibid (p.60)

[16] Ibid (p.61)

[17] Ibid (p.63)

[18] Ibid (p.64-67)

[19] Ibid (p.67-72)

[20] Ibid (p.75-76)

[21] Ibid (p.80)

[22] Ibid (p.80-81)

[23] Ibid (p.85)

[24] Ibid (p.85)

[25] Ibid (p.91)

[26] Ibid (p.92)

[27] Ibid (p.93-95)

[28] Ibid (p.111)

[29] Ibid (p.112)

[30] Ibid (p.113-114)

[31] Ibid (p.113-114)